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Tipos

Alison não era o tipo de garota com amigos. Não era o tipo de garota indecisa. Não era o tipo de garota bonita. Resumindo, Alison não era O Tipo de garota. Estava mais para um tipo ignorado de ser humano do sexo feminino. Pelo menos era assim que ela se definia. Na realidade, ela tinha um amigo chamado Nero, era bonita o bastante para chamar a atenção de garotos desconhecidos e simplesmente não sabia o que fazer da vida. Ela também era um pouco dramática. Não era uma pessoa ruim, só não tinha uma visão positiva sobre si.
Todos esses fatores influenciaram indiretamente o fato dela ter resolvido se sentar sozinha no alto de um morro próximo a sua cidade num fim de tarde de Junho. “Estou indo porque a vista é bonita”. “Estou indo porque não tenho nada melhor para fazer”. Não. Não era isso. Ela mesma sabia o porquê, só tentava negar.
Marjorie era O Tipo de garota. Pelo menos era assim que todos a definiam. Não que ela acreditasse nisso. Tinha pelo menos a humildade de negar. Ela se definia como uma garota comum, embora houvesse grande chance de que sua vida se tornasse um seriado. Não por ser uma vida extremamente extraordinária, mas por ser extremamente comum. Garota bonita, popular, sempre sorrindo, ora ia bem nas aulas ora ia mal. Pais normais, nem pobres, nem ricos. Nada de diferente da maioria dos personagens de seriado.
Aparentemente, sem motivos para subir um morro num fim de tarde de Junho. “Estou indo porque a vista é bonita”. “Estou indo porque não tenho nada melhor para fazer”. Outra vez, não. Qual seria um bom motivo para que o índice de pessoas nesse morro aumentasse em 200% no mesmo dia?
Não chamaria de bom motivo, chamaria de motivo suficiente. Escolas não são ambientes prazerosos. São ambientes feitos para transformar seres bondosos, crianças, em seres irritantemente aleatórios. Logo surgem os grupos e os marginalizados e surgem as discussões e brigas. Ninguém tem noção de si nem dos outros. Alison invisivelmente tentava conduzir sua vida na escola, até se cruzar com Marjorie. Não num corredor ou num pátio, apenas numa discussão entre amigas.
Uma discussão simples sobre garotos bonitos levou a uma discussão complicada sobre garotas bonitas. A maioria das amigas de Marjorie carregavam a opinião dos pais a respeito de garotas que gostam de garotas, a qual não era positiva. Marjorie não se importava com isso. No entanto, foi questionada. Se tivesse que escolher uma garota, qual escolheria? Era uma armadilha, obviamente. As amigas dela não responderiam ou diriam que não escolheriam nenhuma porque eram “normais”. Marjorie, em sua inocência, apontou Alison.
Em cinco minutos, Marjorie deixou de ser O Tipo para se tornar O Tipo Errado. Nem é preciso dizer que no fim da aula todos já sabiam que “Marjorie estava apaixonada por Alison”. Alison, que estava acostumada com a vida nas sombras, notou rapidamente sua reputação descer 100 pontos negativos. Marjorie terminou a aula escondida no banheiro esperando todos irem embora. Alison simplesmente correu para casa, evitando todos que encontrava no caminho e se dispunham a dar comentários ofensivos.
Foi assim que chegaram ao morro. Alison chegou primeiro. Ela sempre se sentava lá quando estava entediada, triste ou só queria uma paisagem para refletir. Estava com raiva por terem estourado sua bolha de invisibilidade com paus e pedras, mas principalmente por criarem teorias sobre “Marlison”, o novo casal lésbico da escola, algo que em nenhum universo seria possível. “Somos totalmente diferentes”. Alison nunca se preocupou em se apaixonar, logo, nunca se preocupou com o alvo de sua paixão. Nunca havia parado para pensar se gostava de garotos ou garotas. Talvez os dois? Talvez nenhum?
Logo, chegou Marjorie, chateada com suas ex-amigas e envergonhada por ter sua reputação destruída por um boato. Um boato? Marjorie também não sabia. Pelo menos agora tinha dúvida. Antes, seu sonho era um garoto que todas as garotas achavam bonito, mas nenhuma se aproximava o suficiente. Típico.
– Marjorie?! – Disse Alison, surpresa.
Marjorie apenas olhou pálida para Alison. Alison a olhou também. Houve silêncio por um momento. Marjorie abaixou a cabeça, envergonhada, e se virava para ir embora.
– Não, espera aí! Você tem que falar comigo! – Gritou Alison, irritada com a garota. – Por que você fez isso? O que você disse para elas? Eu estava perfeitamente bem antes! Por sua causa agora todos me odeiam! E eu nem fiz nada! Me diz, por que eu?
Boa pergunta. Por que Alison?
– Eu… eu não sei. – Respondeu Marjorie.
Alison apenas ficou observando Marjorie enquanto enchia sua cabeça de “eu odeio essa garota”. Marjorie queria se desculpar. “Pelo quê?”, pensava. A melhor ideia que teve foi tentar explicar o que houve. Depois de explicar, Alison disse:
– Ah… foi isso? Essas garotas são idiotas. É só ignorar, logo elas param. Só não seja amiga delas de novo.
– Sim, agora estou sem amigas. Se andar com elas, sou idiota. Se andar com você, sou lésbica. – Respondeu Marjorie, recebendo um olhar de reprovação de Alison. – Desculpa.
– Tudo bem, você tem razão.
– Então… você é?
– Lésbica? Não, é claro que não. Quero dizer, não sei. Nunca parei para pensar nisso. E você?
– Estou em dúvida agora, eu acho. – Disse Marjorie sorrindo. Alison sorriu também e convidou-a para sentar ao seu lado. O sol estava quase se pondo. “Seria o timing perfeito” pensou Alison. Na possibilidade delas se beijarem, seria algo incrivelmente literário isso acontecer ao mesmo tempo que o pôr do sol. Coincidentemente, Marjorie pensou o mesmo e até riu sozinha por um momento, despertando o olhar de Alison.
– E se…? – Ponderou Marjorie.
Alison pensou por um momento. Olhou para Marjorie. O sol iluminava seu cabelo de um jeito quase cinematográfico. Seus olhos estavam brilhando, como se estivessem esperançosos. Marjorie estava observando Alison, observando seu rosto, que não era como o rosto de protagonistas de seriados americanos, mas era perfeito ao seu modo. Observou seu modo tímido de sentar na grama, de ponderar sobre a possibilidade. Marjorie hesitou por um momento, temendo que Alison fosse embora. Nesse momento, Alison se aproximou.
Não foi o beijo perfeito. Não foi sincronizado com o pôr do sol nem iluminado pelas estrelas. Marjorie estava de olhos abertos e seus lábios estavam gelados. Alison se arrependeu por um momento de sua escolha, mas não sabia se parava. Aos poucos tudo se ajeitou.
No fim, elas riram.
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Atualizado em: Seg 13 Nov 2017
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